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Domingo, 23 de abril de 2017

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Boletim n°9 - Dez. 2004
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Travessia da Serra Fina

10 a 12 de junho de 2004

A Travessia da Serra Fina, na Serra da Mantiqueira, ainda hoje é pouco conhecida e divulgada, pelo menos junto ao grande público, talvez por se tratar de uma caminhada com um grande nível de dificuldade, tanto no aspecto de sua logística e navegação quanto de esforço físico. São cerca de 40 quilômetros, percorridos normalmente em 4 dias, num sobe-e-desce incessante por alguns dos picos mais altos de nosso país, destacando-se a Pedra da Mina, que recentemente teve sua altitude corrigida pelo IBGE para 2798m. Além disso, o frio e ventos intensos, somados à escassez de água, que só é encontrada seguramente em dois pontos, o peso das mochilas e desníveis que chegam a 1000m de altitude são uma prova de fogo até mesmo para os montanhistas mais preparados. Mas nem tudo na Serra Fina é sofrimento...

Para quem se atreve a fazer esta travessia, a recompensa é enorme. O visual que temos do belíssimo Maciço do Itatiaia, visto por outro ângulo, e ter o privilégio de podermos bivacar no cume de duas grandes montanhas, o Pico dos Três Estados e a Pedra da Mina e assim poder contemplar o nascer e o pôr-do-sol do cume destes picos, é algo simplesmente inesquecível. Até mesmo a pessoa mais insensível deste mundo ficaria impressionada com a beleza ímpar deste local.

Os participantes desta excursão formavam dois grupos. Um do Rio, formado pelo Cassio, Sonia, Paulo, Rodrigo, Álvaro e eu. Outro, vindo do Sul, formado pelo Marcos “Rapsing” (Guia principal desta excursão, por ter sido o único, junto com a Elaine, que já tinha feito esta travessia), Elaine, Paulo “Máfia” e Maique. Nos encontramos na cidade de Engenheiro Passos no dia 10 de junho e, com o veículo fretado por nós, seguimos rumo a Itamonte pela mesma estrada que nos leva à parte alta do Parque Nacional do Itatiaia. Chegamos na entrada da fazenda Engenho da Serra, ex-Sítio do Pierre, ainda na estrada e começamos a caminhada. Nosso objetivo, nesse primeiro dia, era alcançar o cume do Pico do Três Estados, a 2665m de altitude, e pernoitar lá. Só que para isso, deveríamos vencer mais de 1000m de desnível, já que estávamos a cerca de 1500m de altitude.

Com uma hora de caminhada, chegamos na fazenda propriamente dita. Lá, enchemos todos nossos cantis, o que dava aproximadamente 6 litros de água por pessoa e, com a autorização obtida anteriormente junto ao proprietário da fazenda, continuamos a caminhada. O início é bem agradável, já que em pouco tempo de caminhada já podemos avistar o Morro do Couto e as Prateleiras, no outro lado da Serra da Mantiqueira. Depois, um grande trecho da caminhada passa por entre vários bambuzinhos que atrapalham muito nosso desempenho, pois agarram em tudo o que podem imaginar. Muitas vezes também temos que nos agachar, e não poucas vezes nos arrastar, para conseguir passar. Passado esse tormento, iniciamos a grande subida, primeiro rumo ao pico chamado Alto dos Ivos, a aproximadamente 2500m de altitude. No início, essa subida se dá por entre os altos capins de anta, que chegam a quase 2m de altura. Mas, à medida que subimos, o caminho passa a ser predominantemente sobre grandes lajeados, as vezes com grande inclinação, sempre marcados por totens.

Depois de atingido o Alto dos Ivos, o caminho para o Três Estados é sobre uma sucessão de cumes secundários, todos com altitude por volta dos 2500m. Para piorar, a cada cume desses que conquistávamos, tínhamos que descer praticamente tudo o que subíramos para poder novamente começar a subir e conquistar o seguinte. Depois de aproximadamente 2 horas nesse sobe-e-desce incessante, com as mochilas pesando como chumbo, sentíamos que nossas forças exauríram-se rapidamente e um abatimento cada vez maior caía sobre nós. Nesse trecho, aquela famosa pergunta que tantos montanhistas já fizeram não saía da minha mente : “O que estou fazendo aqui???”

Felizmente, quando tudo parecia perdido, nos deparamos com o marco da divisa dos três estados, Rio, São Paulo e Minas, que está presente no cume do Pico dos Três Estados. A muito custo e esforço, conseguimos atingir nosso primeiro objetivo. Para nos receber, muito vento e frio, o que nos fez rapidamente montar nossas barracas, fazer nossa janta e voltar para elas a fim de descansar daquele dia tão fatigante.

O dia seguinte raiou da mesma maneira como caiu no dia anterior: muito vento e frio. Mas nos brindou com uma das mais espetaculares vistas que vi na minha vida. O sol estava nascendo justamente atrás do Maciço de Itatiaia, dando um contorno maravilhoso às suas montanhas, mais especificamente às Agulhas Negras, que reinavam absolutas do outro lado do vale que corta a Mantiqueira, separando-as da Serra Fina.

Mas o que mais marcou e impressionou a todos que tiveram o privilégio de poder ver com seus próprios olhos foi a espetacular vista que tínhamos, dali do cume do Três Estados, dos inconfundíveis Três Picos de Friburgo! Conseguíamos indentificar claramente o Pico do Capacete e os Três Picos ao seu lado. Um pouco mais afastada, a Serra dos Órgãos também dava o ar da sua graça, mais parecendo uma grande muralha quando se olhava em direção ao Rio de Janeiro. Um espetáculo da natureza. Mas como nem tudo são flores...

Hora de voltar à nossa realidade. Neste segundo dia, tínhamos o objetivo, não menos ambicioso, de atingir o cume da Pedra da Mina, o ponto culminante de nossa aventura e pernoitar por lá. Para isso, deveríamos fazer uma grande descida após o Três Estados, passar por um bambuzal excelente para acampamento em caso de tempo ruim e atingir o Pico do Cupim de Boi. Concluímos esta etapa sem muitos problemas e pudemos descansar um pouco tendo uma linda vista do Cabeça de Touro, uma grande montanha a cerca de uma hora de ataque, sem peso, do Cupim de Boi.

A partir daí a caminhada se dá entre uma grande crista, que se estende até o Vale Ruah ou Várzea da Pedra da Mina, onde nasce o Rio Verde. O caminho até lá não apresenta muitos desníveis, apenas uma vegetação mais fechada seguida por lajeados. Chegando no final dessa crista, descemos em direção ao vale, mais precisamente ao riacho, por onde caminhamos praticamente todo o tempo tendo-o ao nosso lado.

Perto de uma pequena queda dágua, uma pausa para nos refrescar e tomar até um banho, já que o sol estava a pino e o calor bem forte. Continuamos e, mais adiante, onde o riacho nasce, paramos novamente para, finalmente, abastecer pela primeira vez nossos cantis e comer algo com mais “sustância”.

O local é fantástico. A várzea nada mais é que um grande altiplano encharcado a mais de 2500m de altitude, rodeada de vários picos e tendo a Pedra da Mina ao fundo. Perto da base da Pedra da Mina, existem bons locais para acampamento e, um pouco mais adiante, dá-se o início da subida para o seu cume. À medida que subíamos, a paisagem se tornava ainda mais espetacular. Dava para avistar todo o caminho que fizemos nesse dia, desde o Três Estados, passando pelo Cupim de Boi e pelo Vale Ruah. Ao fundo, Itatiaia se mostrava imponente, com suas Agulhas Negras reinando absolutas. E após cerca de 1 hora desde nossa saída da nascente, atingíamos, às 14:00h, o cume da Pedra da Mina.

A vista de 360° que tínhamos dali era fabulosa. Podíamos indentificar, a oeste, os Picos do Marins e Itaguaré; ao norte, as montanhas e cidades do sul de Minas; a leste o estonteante Maciço do Itatiaia; e ao sul, toda a extensão do Vale do Paraíba, com suas cidades, emolduradas ao fundo pela Serra do Mar.

Após armarmos nossas barracas, começaram a chegar vários grupos que faziam também esta travessia, só que no sentido contrário. Passaram pela gente mais ou menos 50 pessoas, muito diferente do dia anterior, em que tínhamos monopolizado o cume do Três Estados. Depois do espetáculo do pôr-do-sol, outro espetáculo descortinava-se diante de nossos olhos. Eram as milhares deluzes vindas das cidades do Vale do Paraíba.

Podíamos indentificar desde Volta Redonda até Guaratinguetá. Mais ao sul, observávamos o imenso clarão vindo da Grande São Paulo. Só que o vento e o frio nos empurravam para as barracas, a fim de preparar o jantar e descansar em vistas ao nosso último dia.

E esse último dia não era nada fácil. O dia anterior tinha sido bem menos traumático que o primeiro, mas o terceiro não ficaria devendo muito ao primeiro. Sair da Pedra da Mina, subir e descer vários cumes secundários para chegarmos no Pico do Capim Amarelo, a aproximadamente 2500m de altitude e daí descermos até a Toca do Lobo, final da travessia, não é uma tarefa fácil. Os caminhantes que fazem começando pela Toca, normalmente, fazem este trecho em dois dias. Tudo bem que a maior parte do nosso caminho é descida, mas não deixa de ser desanimador observar todo o caminho que temos que fazer.

A descida da Pedra da Mina foi confusa devido à forte neblina que caiu sobre nós, dificultando muito nossa navegação. Por alguns momentos tivemos que varar mato para atingir a crista que nos levaria em direção ao Capim Amarelo. Depois que chegamos na base da Pedra da Mina a neblina já tinha se dissipado, mas isso não significou que nossos problemas para acharmos o caminho certo tinham acabado. Mais adiante, depois que paramos na outra nascente e último ponto de água da travessia pra enchermos os cantis, nos perdemos novamente. Mais uma vez varamos mato. E não foi somente uma vez que isso aconteceu. Por várias vezes perdíamos as indicações dos totens, mas acreditávamos que vários deles estavam errados. Outra explicação para a confusão era que o caminho “normal” era no sentido inverso, por isso as marcações estavam dispostas a orientar aqueles que iam no sentido contrário ao nosso. Mas como o tempo estava bom e sabíamos a direção a tomar, conseguimos avançar sem perder muito tempo.

Passamos pelo Maracanã, um grande local para bivaque que fica próximo ao Capim Amarelo e logo depois começamos o ataque ao cume deste. A subida é muito íngreme, com trechos de mata muito fechada e por isso foi extenuante. Para piorar, o tempo estava fechando rapidamente. Depois de aproximadamente 1 hora de “toca-pra-cima” atingimos o cume do Capim Amarelo. Passamos batido já que a chuva miúda, o vento e o frio nos castigavam.

A descida era tão íngreme quanto a subida e o nosso objetivo nesse momento passava a ser o Pico Quartzito, a 2000m de altitude. Continuamos a descer, descer e descer até o ponto em que começava a subida rumo ao cume. Era a última grande subida e a exaustão e o cansaço se abatiam sobre o grupo. A subida se faz sobre uma crista que liga o Capim Amarelo e o Quartzito e, em determinados pontos, a largura dessa crista não passava de dois metros. Além disso, nesse trecho existe um grande precipício em ambos os lados e, para piorar, ventava bastante a ponto do vento nos empurrar em direção ao abismo. Tivemos que ter muito cuidado nessa hora pois qualquer passo em falso poderia ser fatal.

Atingido o cume do Quartzito, uma pequena pausa para um lanche e fotos e recomeçamos a caminhada. Agora era somente descida até a Toca do Lobo. E após 1 hora, exatamente às17:30h, finalmente cumprimos nosso objetivo, que era chegar na Toca do Lobo, uma gruta utilizada por caçadores da região e perto de um riacho de águas límpidas e geladas. Andamos mais uns minutos em direção a entrada da fazenda, onde o veículo que fretamos para nos resgatar nos encontraria às 18:00h.

Estávamos estropiados, mas completamente felizes por ter tido o privilégio de completar esta difícil e magnífica travessia em apenas 3 dias, contemplando visuais maravilhosos e compartilhando momentos inesquecíveis. E, para completar, deixando um enorme gostinho de quero mais...

Cela


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